Pelo direito à nostalgia
E aceitar o fim das coisas.
O Chocolate Surpresa, criado na década de 80, tinha como proposta um chocolate esculpido como quadros da fauna brasileira, acompanhado de cards surpresa (por isso o nome, Chocolate Surpresa) com fotografias de animais sortidos.
Além disso, se não me falha a memória (para referência, eu nasci em 1995, então não sei se sou uma fonte confiável), o sabor era tão delicioso quanto a sua experiência estética, desde a embalagem, o chocolate e os regalos que o acompanhavam.
Tragicamente, a marca suspendeu suas vendas em 2003 e deixou apenas o sabor da nostalgia de quem pôde ter o privilégio de ter experienciado aquele produto. Tornou-se uma memória coletiva, evocada com saudosismo, com aquela aura retrô intangível e carregada de saudade de um tempo que não existe mais.
Porém, ano passado, o suposto mesmo Chocolate Surpresa foi relançado e, segundo a manchete promovida pela própria marca:
O relançamento chega em parceria com o jogo Roblox, oferecendo uma experiência interativa voltada à sustentabilidade. Ao escanear o QR Code na embalagem, os consumidores acessam uma página com realidade aumentada que apresenta três animais e seus respectivos cards, além de um convite para participar de um jogo educacional no Roblox.
Fonte: “Nestlé relança Chocolate Surpresa com foco em sustentabilidade”, por BHB Food
Este parágrafo que destaquei não somente diz por si só como que o produto foi repaginado pensando nos tempos atuais, com a proposta de se apresentar como uma quimera robloxiana com o objetivo de angariar um novo público infantil, para além de seus maiores consumidores antigos, meros millennials frustrados, com o fim de reafirmar sua relevância na contemporaneidade e não apenas um produto cristalizado no que era antes, mas sim uma nova experiência!
Consigo imaginar como a ideia de misturar o Chocolate Surpresa com Roblox surgiu numa mesa de publicitários fazendo brainstorming. Poetas de LinkedIn discutem entre si como poderiam atrair um público de paladar infantil — para além de colecionadores de Funko Pop e fãs de Harry Potter. Afinal, somente uma criança seria capaz de tolerar quantidades tão exorbitantes de gordura saborizada com aromatizantes artificiais, antiumectante carbonato de cálcio, corantes artificiais vermelho bordeaux, amarelo tartrazina e azul brilhante, com um leve e imperceptível toque de cacau.
Para além de edulcorantes que deixam um retrogosto estranho na língua, ainda nos deixam com o saibo de encarar uma embalagem que emana um sentimento de uncanny valley muito específico de encarar uma imagem muito provavelmente gerada por inteligência artificial.

Não bastando todo o downgrade em inúmeros aspectos, a única proposta diferencial do Chocolate Surpresa é esvaída num QR code. Assim como ilustrações de verso de embalagens de sucrilhos e mapas do metrô da cidade de São Paulo são substituídos por um QR code. A surpresa não é mais um card, mas sim escanear um QR code. Uma experiência tão impessoal quanto você em um restaurante muquirana que não quer gastar dinheiro com um designer para criar um cardápio impresso. É o equivalente a ir pra um museu esperando ver quadros de Van Gogh e só encontrar projeções de imagens em resolução 72 dpi passando nas paredes vazias, dividindo o espaço da sala vazia com influenciadores gravando um vídeo falando “vem comigo tirar fotos nessa nova exposição imersiva!”.
Marcas e empresas seguem batendo na tecla de nostalgia enquanto destroem qualquer resquício de boas memórias que você ainda mantinha para si.
Filmes ou séries antigas ganham remakes com atores cujos procedimentos faciais não condizem com a época retratada e cenas em que, mesmo com o brilho da tela altíssimo, é impossível enxergar o que acontece através das penumbras. Suas franquias de jogos favoritas que você joga desde criança seguem tendo suas equipes demitidas em massa e substituídas por IA. O anime que mudou sua química cerebral quando você era adolescente ganha mais uma nova versão da história em mais um outro mundo paralelo, que vai propiciar mais figures de personagens pré-púberes em poses mais que sugestivas. Mais um longa-metragem animado que marcou a história da animação tem seus direitos comprados para um live action medíocre com elenco majoritariamente branco, de atores de fisionomia e etnia completamente divergentes do original.
A experiência original não basta mais por si própria. A história sempre precisa ser recontada por quem quer protagonizar um sucesso que nunca foi seu. Não há espaço para novos imaginários. A possibilidade de encarar o fim das coisas se torna irrealizável, pois vivemos numa era onde sequer a vida humana tem o direito ao efêmero e é subjugada à perenidade algorítmica. O fim nunca é de fato o verdadeiro fim.
Compre o Chocolate Surpresa e lembre-se não do passado, mas sim de como o futuro poderia ser melhor — já que o futuro que nos foi prometido segue sendo apenas uma utopia.




eu amava aquele da turma da Mônica que o personagem era chocolate branco 😭 um crime o que fizeram com as witch
Nostalgia já foi considerada uma doença, e eu sou a favor de voltar a considerar, pq isso ta contaminando a produção cultural popular de forma bizarra